15.5.06

Timor-Leste: Forças de Defesa, uma história conturbada de uma jovem instituição

Lisboa, 09 Mai (Lusa) - A deserção de cerca de 600 soldados das Forças Defesa de Timor-Leste (F-FDTL), que está na origem da actual crise no país, foi a terceira nos cinco anos de vida desta instituição ainda em fase de consolidação. Já por duas vezes as F-FDTL viram-se a braços com a saída de militares, todos não pertencentes ao antigo exército de guerrilha, as Falintil, que deixou de existir a 01 de Fevereiro de 2001 - ainda durante o período de transição sob administração da ONU - para dar lugar à estrutura regular hoje existente./Em Fevereiro de 2001, cerca de 100 formandos abandonaram o quartel em Aileu, um acto que os responsáveis militares atribuíram na altura a "excessivas expectativas" dos recrutas, quer quanto ao treino quer quanto às condições. / Em Dezembro de 2003 foram desmobilizados mais de 40 desertores depois de acumularem centenas de faltas num ano. Para o comando, esse foi o resultado da herança da ocupação indonésia, com os soldados a sentirem menos poder do que os militares indonésios. Estas duas pequenas crises na jovem instituição apontavam, já na altura, para alguns problemas relacionados com a criação de uma nova força de defesa. / O processo envolveu a formação, maioritariamente conduzida por militares portugueses, de centenas de jovens recrutados em todo o território timorense, que se somaram a um primeiro batalhão formado integralmente por ex-membros das Falintil. / O plano inicial previa que as F-FDTL integrassem 1.500 soldados regulares, divididos por dois batalhões, além de uma componente naval, cuja criação foi igualmente apoiada por Portugal, que ofereceu duas lanchas. É este ainda o actual modelo, de onde saíram em Fevereiro passado os cerca de 600 militares contestatários - mais de um terço do total de efectivos e na sua maioria naturais dos distritos ocidentais -, que alegaram tratamento discriminatório por parte das hierarquias e foram, entretanto, afastados do exército com o apoio do governo./ Para a construção de um centro de formação, as forças de defesa contaram com o apoio australiano, a leste de Díli, herdando mais tarde estruturas debilitadas deixadas pelos capacetes azuis da ONU, mas debatendo-se regularmente com carência de fundos, meios técnicos e equipamento. Em 2003, no decurso de operações militares a oeste de Díli, as F-FDTL tiveram que recorrer a rações de combate "emprestadas" por militares portugueses, ao serviço das Nações Unidas./ A situação tem vindo a melhorar, mas continua longe dos objectivos traçados num estudo do Kings College de Londres, que serviu parcialmente como base para a construção das F-FDTL e que perfilava as opções da futura força. / O descontentamento de alguns militares - maioritariamente jovens recrutados já depois da criação das F-FDTL, sem qualquer ligação no passado com as Falintil - evidenciou-se, pontualmente ao longo de toda a curta história da instituição. / Nos primeiros anos eram frequentes os confrontos entre polícias e militares, a maioria escaramuças individuais ou de pequenos grupos, que nunca envolveram as duas instituições, mas que apontavam alguns dos problemas existentes. / O pouco apoio internacional ao projecto de criação das F-FDTL, menosprezado comparativamente às unidades policiais timorenses, e as dificuldades orçamentais timorenses contribuíram para acentuar ainda mais alguns problemas. / Já na altura se evidenciavam igualmente tensões entre a componente histórica das F-FDTL, os veteranos ou ex-Falintil, e os recrutas mais jovens, bem como entre os timorenses da ponta leste e os naturais da metade oeste do país. / Hoje identificados como loromonu (do ocidente) e lorosae (do oriente), estes dois "grupos" assumiram no passado outras nomenclaturas, a mais conhecida das quais a de "caladis" (ocidente) e "firacos" (oriente), nomes que definem tanto um espaço étnico como político e social. / Historicamente, a metade ocidental de Timor-Leste foi sempre considerada mais próxima das administrações, quer portuguesa quer indonésia, com muitos na resistência a reivindicarem para a ponta leste o berço da luta contra a ocupação. / O problema remonta a séculos passados quando Timor-Leste era dominado por reinos, praticamente divididos na fronteira virtual hoje criada entre os "loromonu" e os "lorosae"./ Altas patentes militares timorenses mostram-se agora menos críticas do que no passado relativamente ao fraco apoio internacional às F-FDTL, afirmando que construir uma força "credível e forte" obriga a que se desenvolva "uma estratégia bem definida e perspectivada a longo prazo". / Nesse sentido, os responsáveis timorenses têm vindo a promover nos últimos dois anos um estudo, conhecido como Plano 2020, que pretende definir "que tipo de força Timor-Leste quer construir no futuro". / O estudo "está praticamente concluído", segundo disse uma fonte militar timorense à Lusa, e assenta em "três pressupostos essenciais": a importância "presente e futura" do mar, o apoio humanitário interno e externo e operações de manutenção de paz no exterior. / Um futuro que terá igualmente que passar por uma aproximação, no capítulo da segurança, aos vizinhos mais próximos, Austrália e Indonésia, segundo a fonte que pediu anonimato. / "Temos que ter um plano bem delineado. Queremos construir uma força, mas sem andar a correr e sabendo claramente para onde queremos ir", disse ainda o responsável das F-FDTL, considerando que "dizer que não foi dada atenção às forças armadas é ser demasiado injusto". / "Temos que definir a direcção que queremos seguir primeiro", acrescentou, garantindo que a hierarquia das F-FDTL está empenhada em defender as instituições democráticas. / ASP. / Lusa/Fim