15.5.06

Timor-Leste: Mercado destruído de volta à rotina, mas sem clientes

Rui Boavida (Texto) e Manuel de Almeida (Fotos), enviados da Agência Lusa
Díli, 11 Mai (Lusa) - O mercado do bairro de Taibessi, destruído nos recentes confrontos de Díli, começa pouco a pouco a ganhar vida, mas os vendedores disseram hoje estar preocupados com a falta de clientes, que fugiram para as montanhas.
Passados 13 dias sobre os confrontos que destruíram cerca de 100 bancas deste mercado, apenas 12 estavam hoje abertas, ainda com o cheiro de madeira queimada no ar, as telas de cobertura rasgadas e espalhadas pelo chão e o que resta de um manequim atirado para o que sobrou de um telhado de zinco de uma banca.
Jacinta Pereira, 40 anos, que antes tinha uma banca, vende agora hortaliças numa lona no chão porque, explica, "não tem outro remédio senão continuar a tentar vender alguma coisa." "Antes da confusão eu vendia cerca de seis dólares por dia (4,7 euros). Hoje só vendi 40 cêntimos, mas tenho que ganhar alguma coisa para comprar arroz", afirmou.
Com o saco de arroz a custar sete dólares e nove filhos em casa, Jacinta não se pode dar ao luxo de ficar em casa.
Foi também pelas crianças que não fugiu para as montanhas, como a quase totalidade dos habitantes do seu bairro, após os confrontos no final de Abril entre militares contestatários, civis e as forças da ordem que fizeram cinco mortos e dezenas de feridos, segundo as estimativas oficiais.
"No bairro de Taibessi só ficaram umas 30 pessoas e por isso quase não há gente a comprar. Se não conseguir vender tudo, as hortaliças vão ser a comida da minha família, misturadas com milho" acrescentou.
Cerca de 70 por cento da população da capital fugiu para as montanhas, segundo as Nações Unidas, e Jacinta também o teria feito se não fosse pela necessidade de assegurar a alimentação dos filhos, disse.
O governo timorense anunciou na quarta-feira que o primeiro- ministro Mari Alkatiri deu ordens à Comissão para o Levantamento do Volume das Destruições de Bens, criada após os confrontos, para iniciar os preparativos para a reconstrução do mercado e das mais de cem casas e lojas destruídas.
Filomena Bento Porfírio, 45 anos, uma outra vendedora do mercado, perdeu a pequena banca de comida que tinha, que lhe rendia 50 dólares de lucro por mês. A vendedora estimou o prejuízo em 500 dólares, entre comida e bebida roubadas e mobília destruída. Vai levar- lhe quase um ano a recuperar, mas ainda assim considera que teve alguma sorte.
"Eu não estava no mercado nesse dia, mas os meus filhos estavam, e graças a Deus que nada lhes aconteceu", recordou, adiantando que não sabe, agora, quanto tempo vai levar até que o mercado volte a funcionar em pleno.
"Quanto mais rápido, mais depressa recupero o dinheiro que perdi", disse Filomena em declarações à Lusa.
Lusa/fim