4.6.06

Timor-Leste: textos importantes

Timor-Leste: Falhou acompanhamento das jovens forças de segurança - Especialista
Lisboa, 31 Mai (Lusa) - A desarticulação das forças de segurança de Timor-Leste deveu-se à falta de um acompanhamento internacional indispensável a uma força criada "do nada", defendeu hoje o subintendente Luís Elias, responsável pela formação da polícia timorense em 2002-2003. Luís Manuel André Elias apresentou hoje ao fim da tarde, em Lisboa, o livro "A Formação das Polícias nos Estados Pós-Conflito: o caso de Timor-Leste", editado pelo Instituto Diplomático e que resulta da tese de mestrado em Ciência Política do subintendente da PSP, elaborada com base na sua experiência enquanto responsável directo pela formação da Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL). "O livro aborda o processo de formação da Polícia Nacional de Timor-Leste e a construção do primeiro Estado do século XXI a partir do nada", explicou o subintendente Elias à Agência Lusa. "A principal lição apreendida é a de que o processo de construção de um Estado não se compadece com projectos de curta duração. A consolidação tem de ser feita a longo prazo, quer através da cooperação bilateral, quer através das Nações Unidas", afirmou. Questionado sobre se discorda da saída das Nações Unidas de Timor-Leste - com o mandato da actual missão prolongado em Maio por um mês -, Luís Elias não hesita: "Foi prematura (Ó) sobretudo a pressa em transferir responsabilidades para as autoridades locais", disse, frisando contudo que não inclui nestas responsabilidades as de Governo, que considera acertado estarem completamente nas mãos dos timorenses. "A missão está lá, mas reduziu muito os seus efectivos e o seu empenho no acompanhamento das instituições (Ó) A consolidação da cadeia de comando e controlo ficou entregue a meia dúzia de conselheiros", disse, explicando que esse número é muito insuficiente para assegurar "a complexidade da formação de uma polícia e da sua relação com as outras instituições". Essa falta de acompanhamento fez com que "haja processos muito complexos que não correram bem", de que é exemplo "a integração dos ex- combatentes", "muitos dos quais não foram reintegrados com sucesso na sociedade". Depois de afirmar que esse longo processo de consolidação deve ser assumido tanto pela ONU como pelos principais países doadores, o subintendente Elias sublinhou também a importância da "coordenação entre os diferentes países" para que haja uma "interligação entre os projectos em áreas conexas", coordenação que considerou não ter existido. Neste contexto, a actual crise "não (o) surpreende", embora faça questão de sublinhar que "a desarticulação começou nas Forças de Defesa", com o abandono dos quartéis por mais de 500 militares, em Fevereiro, a que se seguiram, em Maio, dezenas de outros, que desertaram em protesto pela intervenção das Falintil - Forças de Defesa de Timor-Leste (F-FDTL) nas manifestações do fim de Abril. "Isto não é uma crítica aos timorenses. Agora, são obviamente instituições frágeis que requerem maior acompanhamento. Quando se tem as forças de defesa a disparar contra a polícia, algo está mal", disse, referindo-se aos incidentes de quinta-feira passada, em que dez polícias morreram e cerca de 30 ficaram feridos quando militares das F- FDTL dispararam sobre polícias desarmados. Para o subintendente, uma situação com a que se vive "tem de ter consequências" junto da ONU e dos principais doadores. Luís Elias defende a ida para Timor-Leste de uma nova missão da ONU que acompanhe a consolidação das jovens instituições do país, "numa actuação integrada" com os principais doadores "e em conjugação com as autoridades timorenses". Essa missão, considerou, deve ser "reforçada em diversas áreas", desde logo na da segurança interna e de defesa.
MDR. Lusa/fim